#186 Sem destino
Uma conversa em Torreblanca
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Alta capacidade, gênero e o que muda quando você para de se adaptar e começa a se estudar
O encontro com a artista
Estava sentada embaixo dos toldos bege quando ela chegou.
Tinha saído de casa sem destino certo. Uma vez por semana eu faço isso: deixo o celular no bolso sem fone, sem podcast, sem nada pra ouvir além do que está do lado de fora. Julia Cameron chama de encontro com o artista, duas horas sozinha alimentando o poço, sem produzir nada. Eu chamo de necessidade. O cérebro que não para precisa, às vezes, de um dia em que ninguém pede que ele chegue a algum lugar.
Fui parar em Torreblanca. Aquele sol de Andaluzia que derrete antes mesmo de você olhar pra ele. Parei debaixo dos toldos, deixei o ritmo desacelerar. E ela chegou com aquela postura de quem viveu de pé, me viu, e puxou conversa como quem já me conhecia.
O plano infalível
O plano era simples: sentar, olhar para o mar, não produzir nada. O cérebro, como sempre, tinha outros planos. Ficou rodando por um tempo, repassando o que estava inacabado, o que podia ser melhorado, o que ainda precisava sair. É assim que funciona. Você tira o fone, guarda o celular no bolso, senta debaixo de um toldo na praia, e a cabeça continua processando.
Fui deixando. Eventualmente ela desacelera.
Foi nesse intervalo, entre o barulho interno e o silêncio que ainda não tinha chegado, que ela apareceu.
Minha primeira reação foi a de sempre: lá vem alguém. Depois de alguns segundos, percebi que estava errada. Maria não chegou para ocupar espaço. Chegou já conhecendo o banco e só foi sentar.
Puxou conversa antes de eu entender que já estava conversando.
Maria
62 anos. Do Equador. Trinta anos em Andaluzia.
Na primeira semana que chegou, o grupo de equatorianos que a recebeu foi drogado. Acordaram com tudo revirado, sem entender o que tinha acontecido. Ela era nova, estava sozinha, e essa foi a primeira coisa que a Espanha lhe deu. Ficou.
Trabalhou, arrumou um lugar, foi buscando os filhos um a um. Duas meninas, um menino. Hoje são adultos, têm seus próprios filhos. No Equador ela guarda duas casas. Uma virou terreno. A outra, uma casinha que nunca vendeu porque, ela explicou com aquela lógica tranquila: não sabia se um dia os filhos iam precisar voltar.
Mas eles não cobram isso dela. A família dela está aqui.
Perguntei se ela pensa em voltar. Fez uma pausa pequena, a areia clara do Mediterrâneo saindo fumaça, o mar quieto naquela hora do dia. Disse que não. Que tudo lá está diferente. Que a vida dela é toda aqui.
Disse isso sem tristeza.
Depois que ela foi
Fiquei mais um tempo depois que ela foi embora. O Mediterrâneo continuava quieto. Andei por mais uma hora sem destino certo, que era o que tinha saído para fazer desde o começo.
Eu fiquei pensando nisso o resto do dia.
Se o seu cérebro também não para, tem um espaço novo para isso. Chega na sexta.




Algum cérebro para? Uma vez comentei com a professora de ioga que as vozes da cabeça nunca se calam por completo, o cérebro tá sempre falando com a gente... é aceitar, afastar o que não presta e escolher outro foco, né?
ah, os encontros ao acaso… 😊